Mulher dançando

Qual a Relação Entre Música e Dança, Segundo a Neurociência

Embora já existam muitos trabalhos sobre os efeitos no cérebro do treinamento musical, ainda se sabe pouco sobre o impacto da dança e, principalmente, sobre a comparação direta entre essas duas práticas.

Como a música e a dança podem modificar a estrutura cerebral

Um estudo de 2017 investigou como atividades intensivas que envolvem o corpo e os sentidos, como música e dança, podem modificar a estrutura do cérebro. Para isso, os pesquisadores buscaram entender tanto as semelhanças quanto às diferenças entre músicos, dançarinos e pessoas sem treinamento, analisando a estrutura da substância cinzenta do cérebro e o desempenho em tarefas específicas.

Nessa pesquisa, participaram três grupos: dançarinos experientes, músicos experientes e um grupo controle. Todos realizaram testes relacionados à dança (como imitação de movimentos) e à música (como ritmo e melodia), além de exames de imagem cerebral. Os resultados comportamentais mostraram que dançarinos se destacaram em tarefas de movimento, enquanto músicos tiveram melhor desempenho em tarefas musicais, como percepção rítmica e melódica, o que indica que cada tipo de treinamento desenvolve habilidades específicas.

No entanto, ao observar o cérebro, surgiu um dado importante: tanto músicos quanto dançarinos apresentaram aumento da espessura cortical em uma mesma região: o giro temporal superior, uma área ligada ao processamento de sons e à integração entre percepção e movimento. Além disso, quanto maior o desenvolvimento dessa região, melhor era o desempenho dos participantes em tarefas tanto de música quanto de dança.

Esses resultados sugerem que, apesar das diferenças entre as práticas, existe uma base neural comum entre música e dança. Ambas dependem da integração entre ouvir, perceber e agir, ou seja, de uma coordenação entre sistemas auditivos e motores. Isso explica por que o treinamento em uma dessas áreas pode fortalecer habilidades que também são importantes na outra.

Por fim, o estudo contribui para a compreensão da plasticidade cerebral, mostrando que o cérebro se adapta de forma semelhante a diferentes tipos de treinamento artístico. Ele também amplia o conhecimento sobre a dança, ainda pouco explorada na neurociência, e reforça a ideia de que práticas artísticas têm um papel importante no desenvolvimento e na organização do cérebro humano.

Tchaikovsky no ensino de música e balé

Uma pesquisa feita na Utah Valley University, mostrou como algumas obras de Pyotr Ilyich Tchaikovsky podem ajudar estudantes de música e balé a entender melhor a relação entre esses dois campos artísticos. Para isso, a pesquisa contou com a participação de 79 alunos de dança e música da universidade.

Para a surpresa de todos, a pesquisa revelou que os estudantes não conheciam bem as conexões entre música e balé, mesmo conhecendo algumas composições famosas de Tchaikovsky. Com base nisso, o estudo usou três balés famosos (Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida e O Quebra-Nozes), e três sinfonias (a 4ª, 5ª e 6ª) para criar um material didático que ajudasse os estudantes a aprenderem.

Na pesquisa, 63% dos estudantes já conheciam pelo menos um dos balés Lago dos Cisnes ou O Quebra-Nozes, mas poucos conheciam a sinfonia 6 e o balé A Bela Adormecida, especialmente entre os bailarinos.

Um ponto importante é que muitos bailarinos pensavam que “sinfonia” era um grupo que tocava música, e não o tipo de música. Isso mostra que eles precisavam aprender mais sobre estrutura e forma musical.

O material didático criado usava três ideias principais: a história da música e do balé no século 19, as semelhanças na estrutura das sinfonias e balés, e os elementos artísticos, como temas e melodias. Um ponto importante da pesquisa, historicamente falando, foi que o estudo explicou como o romantismo mudou a música e o balé, mostrando como Tchaikovsky e os coreógrafos trabalharam juntos para fazer balés famosos.

Na estrutura, a gente vê que tanto as sinfonias quanto os balés são divididos em partes, têm temas que aparecem e voltam, e contam uma história, o que ajudou os alunos a entenderem melhor como são feitas essas obras. Nos elementos artísticos, o estudo mostrou como Tchaikovsky usou ideias musicais parecidas em suas sinfonias e balés.

Em muitos casos, a estrutura do balé clássico completo pode ser comparada à estrutura de uma sinfonia, ambas com grandes desenvolvimentos durante o século XIX . O balé, a sinfonia e a ópera possuem uma estrutura similar com três ou quatro atos (ou movimentos), uma combinação de solistas e corpo de baile (ou orquestra ou coro), e o estabelecimento do material temático na abertura, no prólogo ou no primeiro ato.” – trecho retirado do artigo.

A pesquisa também falou sobre a prática, mostrando que o andamento da música, os ritmos e a contagem são muito importantes para a dança e a música funcionarem bem juntas. Por exemplo, o ritmo das valsas influencia muito como os bailarinos se movem e como os músicos devem tocar. Também é importante que músicos e bailarinos se comuniquem para acertar a música e a dança, já que às vezes essas partes podem causar dificuldades. Além disso, o trabalho em equipe entre compositor, coreógrafo e outros envolvidos na criação do balé é essencial para o sucesso das apresentações, como aconteceu com O Quebra-Nozes, que só fez sucesso depois de algumas mudanças.

No final, a pesquisa concluiu que música e balé são áreas que se complementam, mas os estudantes nem sempre aprendem isso juntos durante a formação. Usar as composições de Tchaikovsky para estudar pode ajudar os alunos a melhorarem sua musicalidade, técnica, criatividade e a se comunicarem melhor entre eles. Isso prepara músicos, bailarinos e coreógrafos para trabalhar em conjunto com mais facilidade, o que é muito importante tanto na escola quanto na vida profissional nas artes.


Referências

(de onde tiramos essas informações)

Falisha J. Karpati, Chiara Giacosa, Nicholas E.V. Foster, Virginia B. Penhune, Krista L. Hyde. Dance and music share gray matter structural correlates. Brain Research,

Volume 1657. 2017.

SHEEDY-KRAMER, Justine. The symphony and the ballet: select compositions of Tchaikovsky as an educational tool for music and ballet. The Journal of the Utah Academy of Sciences, Arts & Letters, v. 92, 2015


Posts Similares