Representação de uma cabeça abrindo e saindo um controle de videogame de dentro

O que Acontece com o Cérebro de Quem Joga Videogame?

Os videogames fazem cada vez mais parte da vida cotidiana de pessoas de diferentes idades e culturas. Em todo o mundo, estima-se que sejam dedicadas cerca de 3 bilhões de horas por semana aos jogos eletrônicos. Para se ter uma ideia dessa dimensão, um jovem pode acumular aproximadamente 10 mil horas jogando até os 21 anos.

Diante de uma exposição tão intensa, surge uma pergunta importante: o que acontece com o cérebro de quem joga videogame regularmente?

O que acontece com o cérebro de quem joga videogames regularmente?

Pesquisas indicam que jogadores experientes podem apresentar vantagens em algumas habilidades cognitivas, especialmente aquelas relacionadas à atenção, percepção e controle executivo. Além disso, estudos de treinamento sugerem que apenas 10 a 20 horas de contato com determinados videogames já podem melhorar o desempenho em tarefas que exigem essas habilidades.

Mas existe uma questão ainda mais interessante: essas habilidades adquiridas durante o jogo podem ser utilizadas em outras situações?

Essa possibilidade é conhecida como transferência de aprendizagem. A ideia é que uma habilidade desenvolvida durante o treinamento com videogames possa ir além da tarefa praticada e beneficiar outras atividades cognitivas, e, idealmente, até situações do cotidiano.

Os resultados disponíveis são promissores, embora não sejam unânimes. Alguns estudos encontraram efeitos de transferência para outras tarefas, enquanto outros não observaram os mesmos benefícios. Uma meta-análise apontou limitações metodológicas em parte dessas pesquisas, mas concluiu que os videogames estão entre as estratégias de treinamento cognitivo mais promissoras quando o objetivo é obter benefícios que ultrapassem a atividade treinada.

Além das mudanças no desempenho cognitivo, os pesquisadores começaram a investigar se o uso frequente de videogames também está associado a alterações na estrutura do cérebro.

Jogar Videogame aumenta a massa cinzenta do cérebro?

Em um estudo realizado com adolescentes, por exemplo, pesquisadores compararam jogadores frequentes (que jogavam cerca de 49 horas por semana) com jogadores ocasionais, que jogavam menos de 9 horas semanais. Os jogadores mais frequentes apresentaram maior volume de substância cinzenta no estriado ventral esquerdo, uma região cerebral envolvida, entre outras funções, no processamento de recompensa e motivação.

Outro estudo, realizado com homens adultos, encontrou uma associação entre o número total de horas dedicadas a videogames ao longo da vida e o volume de substância cinzenta em regiões como a formação hipocampal, especialmente o córtex entorrinal, além do córtex occipital.

Curiosamente, o tipo de jogo também parece fazer diferença. Os pesquisadores observaram que o gênero de videogame preferido pelos participantes ajudava a prever o volume de substância cinzenta no córtex entorrinal. Jogos de plataforma, como Super Mario 64, Commander Keen, Sonic e Mega Man, e jogos de lógica e quebra-cabeça, como Tetris, Campo Minado e Professor Layton, foram os que apresentaram a associação mais forte com um maior volume dessa região cerebral.

Esses resultados levantam uma questão fascinante: os videogames podem não apenas treinar determinadas habilidades cognitivas, mas também estar relacionados a mudanças na própria estrutura do cérebro?

É justamente essa possibilidade que tem despertado o interesse dos pesquisadores.

Jogar Super Mario promove mudanças estruturais no cérebro?

Você sabia que jogar Super Mario pode estar relacionado a mudanças na estrutura do cérebro?

Um estudo publicado em 2013 investigou essa questão acompanhando 48 adultos que tinham pouca ou nenhuma experiência recente com videogames. Durante dois meses, parte dos participantes jogou Super Mario 64 por pelo menos 30 minutos por dia, enquanto outro grupo não realizou o treinamento.

A escolha do jogo não foi por acaso. Super Mario 64 exige que o jogador explore um ambiente tridimensional, encontre objetos, memorize caminhos, resolva problemas e planeje estratégias para avançar no jogo.

Depois de dois meses, exames de ressonância magnética mostraram um aumento da substância cinzenta em regiões específicas do cérebro dos participantes que jogaram: o hipocampo direito, o córtex pré-frontal dorsolateral e o cerebelo.

O hipocampo é importante para a memória e a navegação espacial; o córtex pré-frontal participa do planejamento, da tomada de decisões e da memória de trabalho; e o cerebelo está envolvido principalmente no controle e na coordenação dos movimentos.

Um resultado especialmente interessante apareceu no hipocampo. Quanto maior foi o aumento de substância cinzenta nessa região, maior também foi a mudança dos participantes em direção a uma estratégia de navegação chamada alocêntrica, aquela em que usamos as relações entre diferentes elementos do ambiente para nos orientar.

Os pesquisadores também encontraram uma associação entre o desejo de jogar e o aumento de substância cinzenta no hipocampo e no córtex pré-frontal.

O estudo não significa que jogar Super Mario simplesmente “aumenta o cérebro” ou que videogames sejam automaticamente benéficos. O que ele mostra é algo mais interessante: uma atividade complexa e repetitiva, como explorar o mundo de Super Mario, pode estar associada à plasticidade estrutural do cérebro, especialmente em regiões envolvidas nas habilidades que o próprio jogo exige.


Referências

(de onde tiramos essas informações)

Kühn, S., Gleich, T., Lorenz, R. et al. Playing Super Mario induces structural brain plasticity: gray matter changes resulting from training with a commercial video game. Mol Psychiatry 19, 265–271 (2014). https://doi.org/10.1038/mp.2013.120


Posts Similares