Trompete sobre partituras.

Qual a relação da música com a linguagem no nosso cérebro?

Todos os animais se comunicam, mas só o ser humano é capaz de falar e escrever. Isso é o que nós chamamos de linguagem!

Mas você sabia que a linguagem pode ter uma relação muito peculiar com a música? A forma com que as duas podem ser processadas em nosso cérebro são semelhantes em vários aspectos.

Linguagem e Neurociência

Embora seja importante falar que a linguagem não pode ser entendida de forma dissociada dos componentes linguísticos, cognitivos, e sociais, queremos aqui exemplificar como o processamento da parte cognitiva (neurológica) ocorre.

Como muitas áreas da neurociências, foi só no século XX que entendemos melhor a clara relação entre a linguagem e o cérebro humano. Hoje são muitos os estudos sobre isso.

Em resumo, sabemos que a linguagem é processada tanto por áreas específicas (como as áreas de Wernicke e Broca), quanto por sistemas mais gerais em nosso cérebro.

Nós sabemos que o cérebro tem dois hemisférios distintos, mas eles não são iguais. Ao contrário, cada um deles tem especialidades que outro não tem, ou seja, funções lateralizadas.

Segundo o neurocientista Roberto Lent, a linguagem é a mais lateralizada das funções, já que maior parte de seus mecanismos é operado pelo hemisfério esquerdo na maioria dos seres humanos (mas isso não é uma regra).

Segundo o neurocientista P. Dalgalorrondo, a linguagem, principalmente os aspectos semânticos e sintáticos, é predominantemente processada no hemisfério esquerdo em 98 a 99% dos indivíduos destros e em 65 a 70% dos canhotos. Em 20% dos canhotos, a especialização hemisférica para a linguagem é no hemisfério direito, e em 15% deles o processamento da linguagem é bilateral.

Ou seja, não conseguimos padronizar nem como nosso cérebro funciona (rsrs). Mas… estamos no caminho para compreender melhor toda essa maluquice.

Música e Linguagem

O famoso neurocientista Daniel Levitin escreveu que a música pode ser “A” atividade que preparou nossos antepassados pré-humanos para a comunicação, por meio da fala, e para a flexibilidade eminentemente representativa e cognitiva necessária para que nos tornássemos humanos. Ou seja, a música pode ter um papel fundamental na evolução da linguagem da nossa espécie (incrível! Não é mesmo?).

As atividades instrumentais ligadas ao canto podem ter ajudado nossa espécie a aprimorar as habilidades motoras, abrindo caminho para o desenvolvimento do controle muscular de requintada precisão, necessário para a fala vocal ou gestual” – Daniel Levitin

E de fato sabemos que existem paralelos possíveis entre música e linguagem. Do ponto de vista neurofuncional, por exemplo, ambas dependem das estruturas sensoriais responsáveis pela recepção e pelo processamento auditivo (fonemas, sons), visual (grafemas da leitura verbal e musical), da integridade funcional das regiões envolvidas com atenção e memória, e das estruturas responsáveis pelo encadeamento e organização temporal e motora necessárias para a fala e para a execução musical.

Uma partitura musical.

Partitura e leitura musical

Com respeito à leitura de uma partitura, são poucos os estudos existentes. No entanto, o pesquisador Casanova menciona que a leitura da partitura ocorre por meio de reconhecimentos das informações contidas, pois não se lê o nome das notas, mas a altura destas, atribuindo nome ou não.

Além disso, pesquisas recentes de A. Patel, do Instituto de Neurociência da Califórnia, mostraram que existe um enorme grau de sobreposição entre regiões do cérebro para processar música e para linguagem. Isso levanta a hipótese que o conhecimento de elementos linguísticos difere de elementos musicais, mas eles compartilham alguns aspectos do processamento no cérebro.

Na leitura musical, o córtex visual é a área utilizada. O ato de acompanhar uma música é capaz de ativar o hipocampo (responsável pelas memórias) e o córtex frontal inferior. Já para a execução de músicas, são acionados lobos frontais – o córtex motor e sensorial.

Música no desenvolvimento da linguagem infantil

Como a música é uma atividade complexa, pesquisas sugerem que a música pode ajudar a preparar o bebê em crescimento para a vida mental futura, pois a música tem muitas características iguais à fala, o que pode acarretar numa forma de “praticar” a percepção da fala num contexto diferente.

Os pesquisadores Cosmides e Toddy acreditam que a função da música no desenvolvimento da criança é ajudar a preparar a mente para atividades cognitivas e sociais mais complexas.

E, segundo o neurocientista Daniel Levitin, o processamento musical ajuda crianças pequenas a prepararem-se para a linguagem; pode abrir novos caminhos para a prosódia linguística, antes mesmo que o cérebro em desenvolvimento esteja pronto para processar elementos fonéticos.

Conclusão

Fica claro que a relação da música com o desenvolvimento da linguagem no ser humano é um fator interessantíssimo, e que requer nossa atenção.

Seja na utilização da música no aprimoramento da linguagem infantil, ou na leitura de uma partitura musical, ou até mesmo na possível influência da construção da linguagem humana, a magia musical sempre esteve presente na linguagem e ainda está!


Referências

(de onde tiramos essas informações)

COSMIDE, L.; TOBBY J. Evolutionary psychology and the generation of culture, Part II. Case Study: A computational theory of social exchange. Ethology and Sociobiology. 1987.

DALGALARRONDO, P. A evolução do cérebro. [S.l.]: Artmed.

LENT, R. Cem bilhões de Neurônios. 2. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2002.

LEVITIN, D. J. A MÚSICA NO SEU CÉREBRO. Tradução de Clóvis Marques. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

MUNIZ, I. A neurociência e as emoções do ato de aprender. Bahia: Via Litterarum, 2012.

MUSZKAT, M.; CORREIA, C. M. F.; CAMPOS, S. M. Música e neurociências. Revista Neurociências, São Paulo, p. 70-5, 2000.

REBUSCHAT, P. Language and Music as Cognitive Systems. New York: Oxford University Press, 2012.


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