Crianças cantando em uma aula de música.

Por Que Música na Escola?

Nós já falamos por aqui como a música se apresenta como uma característica inata do ser humano. Além disso, a música sempre esteve ligada ao progresso da humanidade.

Segundo a musicoterapeuta e pesquisadora Clotilde Leinig, a música foi, primeiramente, a linguagem mágica do homem primitivo, a sua invocação às divindades. Posteriormente, tornou-se ciência, como matemática e astronomia. Ao longo da história humana, a ciência da música esteve relacionada a outras áreas do saber humano.

Como consequência disso, escritos sobre o valor e a importância da educação musical, do ensino de música, foram encontrados em diversas sociedades históricas.

Ensino de Música ao Longo da História

Documentos da Grécia Antiga já apresentavam a importância da influência da ciência da música no aspecto educacional. Platão, por exemplo, dizia que a música é um instrumento educacional mais potente do que qualquer outro. Seu discípulo, Aristóteles, escreveu que a música deve ser incluída na educação dos jovens.

Na Idade Média, a música integrou-se ao currículo das Sete Artes Liberais – As sete artes liberais da Idade Média eram compostas pelo trivium (retórica, gramática e dialética) e quadrivium (matemática, geometria, música e astronomia).

Ensino de Música no Brasil

No Brasil, enquanto colônia portuguesa, os primeiros registros de educação musical datam da época dos jesuítas. Entretanto, o maior movimento de educação musical já ocorrido no Brasil foi o polêmico Canto Orfeônico, idealizado pelo compositor e maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos, durante o governo de Getúlio Vargas.

No entanto, no período conhecido como Ditadura Militar, ocorreu um desaparecimento gradativo do ensino da música dentro das escolas brasileiras. O ensino da música não era mais obrigatório.

Porém, em 2008, uma nova lei trouxe de volta a música para o ambiente escolar. Mas, embora a música tenha voltado à sala de aula, a educação musical e artística ainda é vista apenas como entretenimento, infelizmente.

Segundo o pesquisador Carlos Granja, a música ainda é pouco valorizada pela escola no Brasil. Ainda que os parâmetros curriculares recomendam a inserção da música na grade curricular, na prática, poucas escolas abrem espaço em seu currículo para um programa consistente e contínuo de aprendizagem musical.

Musicalização e Aprendizagem

A musicalização é um processo pedagógico que apresenta certa semelhança com a alfabetização, sendo, porém, mais longo e complexo por se tratar de uma linguagem abstrata.

É importante lembrar que a musicalização que acontece dentro das escolas regulares possui aspectos diferentes do ensino de música em escolas livres e conservatórios, onde o objetivo é a formação de virtuoses instrumentistas.

Nesse momento, é importante observar que a função da música na escola não é a formação profissional de músicos e musicistas, e sim, o desenvolvimento de um trabalho no qual o objeto de estudo é a própria música.

Desta forma, a educação musical se diferencia do ensino de música tradicional. E, uma das tarefas desta nova pedagogia é unir, sensatamente, os aspectos artísticos e científicos da música.

Música na Escola

A famosa pedagoga musical, Violeta Gainza, disse que o ensino de música no ambiente escolar pode trazer benefícios físicos, psíquicos e mental para os alunos:

  1. Físico: proporcionando atividades capazes de promover o alívio de tensões devido à instabilidade emocional e cansaço.
  2. Psíquico: promovendo processos de expressão, comunicação e descarga emocional através do estímulo musical e sonoro.
  3. Mental: proporcionando situações que possam contribuir para excitar e desenvolver o sentido da ordem, harmonia, organização e compreensão.

Além disso, uma das principais características presentes na música, e no processo de musicalização, é o fato desta proporcionar prazer e bem-estar. Embora existam vários fatores benéficos no ensino da arte e da música no ambiente escolar, não se pode anular o fato da experiência da própria arte por ela mesma – o que pode ser chamado de estética. Por isso, o famoso pedagogo Rubem Alves disse:

Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes” – Rubem Alves

Rubem Alves não estava errado ao evidenciar o prazer estético musical como princípio fundamental da musicalização. Na verdade, muitos pesquisadores, psicólogos e neurocientistas concordam com essa perspectiva.

Por exemplo, a pedagoga e pesquisadora australiana Anita Collins compilou em seu artigo de 2013 vários aspectos neuropsicológicos sobre musicalização e prática musical nas escolas. Em sua conclusão, a pesquisadora apontou que em todos os processos que envolvem a aprendizagem e prática musical, o significado emocional – o prazer estético – é fundamental! Veja o que ela escreveu:

Este estudo conceitual mostrou que as descobertas no campo neurocientífico podem ter progredido o suficiente para informar a prática da educação musical. Esta nova visão da sequência de processamento musical influenciou meus conceitos de design curricular e fortaleceu a necessidade de referenciar significado e emoção em cada ponto do processo.”

Isso mostra que, embora existam muitos benefícios na prática musical dentro da sala de aula, a questão do “belo”, do sensível, do emocional e estético, continua sendo o principal pilar educacional.


Referências

(De onde tiramos essas informações)

ALVES, R. Ostra feliz não faz pérola. [S.l.]: Editora Planeta do Brasil, 2008.

COLLINS, A. Neuroscience meets music education: Explorando as implicações dos modelos de processamento neural na prática da educação musical. International Journal of Music Education, 31 (2), 217-231. 2013.

CRESTANA,. Educação Musical e Musicoterapia: suas complementaridades. [S.l.]: Clube de Autores, 2012.

FLOR, D.; CARVALHO, T. A. P. D. Neurociência para Educador. São Paulo: Baraúna, 2011.

FUNDAMENTAL, B. S. D. E. Parâmetros curriculares nacionais: arte / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília : MEC/SEF, 1997.

GAINZA, V. H. D. Estudos de psicopedagogia musical. São Paulo: SUMMUS EDITORIAL LTDA., 1982.

GRANJA, C. E. D. S. C. Musicalizando a escola: Música, conhecimento e educação. São Paulo.

ILARI, B. A música e o cérebro: algumas implicações do neurodesenvolvimento para a educação musical. Revista da ABEM, Porto Alegre, Setembro de 2003.

LEINIG, C. E. A música e a ciência se encontram. Curitiba: Juruá, 2009.

LOUREIRO, A. M. A. O ensino da música na escola fundamental. São Paulo: Papirus, 2003.

MUNIZ, I. A neurociência e as emoções do ato de aprender. Bahia: Via Litterarum, 2012.

PENNA, M. Música(s) e seu ensino. Porto Alegre: Sulina, 2008.


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