Aprender Música Muda o Cérebro das Crianças
Nós já falamos por aqui como música e terapias artísticas podem ser benéficas para crianças, principalmente aquelas que possuem alguns transtorno neurológico ou de atenção. Mas você sabia que a música é capaz de mudar o cérebro das crianças?
Como isso é possível?
A pesquisadora e neurocientista canadense Krista Hyde fez um estudo bem interessante para entender como aprender música afeta o cérebro das crianças. Ela deu aulas de piano para crianças de 5 a 7 anos durante 15 meses, ou seja, acompanhou esse processo por bastante tempo.
Antes e depois das aulas, ela analisou o cérebro dessas crianças. E o que ela encontrou foi impressionante: o córtex motor primário (uma área importante para controlar os movimentos) aumentou de tamanho. Além disso, as conexões entre essa região e áreas sensoriais, como as responsáveis pelo tato e pela audição, ficaram mais fortes.
Na prática, isso quer dizer que o cérebro dessas crianças ficou mais integrado e eficiente. E não para por aí: elas também melhoraram o controle motor fino, ou seja, ficaram mais precisas nos movimentos. E o mais interessante é que essa melhora não aconteceu só no piano, apareceu também em outras atividades do dia a dia.
Isso mostra algo muito importante: aprender música não desenvolve só habilidades musicais. Existe uma “transferência”, o que a criança aprende ali acaba ajudando em outras áreas também.
Resumindo: aprender música na infância literalmente transforma o cérebro, fortalecendo conexões, melhorando habilidades motoras e contribuindo para o desenvolvimento de forma geral.
Qual o impacto disso em crianças com autismo?
A própria Krista Hyde também investigou como a música pode ajudar crianças com transtorno do espectro do autismo (TEA). Nesse estudo, ela trabalhou com crianças que quase não tinham tido contato com aulas de música antes.
Metade dessas crianças participou de sessões com um musicoterapeuta por cerca de 8 a 12 semanas. Nessas sessões, elas usavam instrumentos musicais para aprender coisas bem importantes no dia a dia, como revezamento (esperar a vez), integração entre movimento e percepção, interação social e habilidades de comunicação. Já o outro grupo (o grupo de controle) trabalhou essas mesmas habilidades, mas só com brincadeiras não musicais.
Um ponto importante: muitas pessoas com TEA têm dificuldade com algo chamado “pragmática”, que é entender o sentido real de uma fala além do literal, tipo ironia, contexto ou intenção. (É aquela ideia meio “Sr. Spock”, de Spock, que entende tudo ao pé da letra.)
E aí vem o resultado interessante: as crianças que participaram das atividades musicais tiveram uma melhora significativa justamente nessa capacidade de usar a pragmática. Ou seja, passaram a entender melhor nuances da comunicação.
Isso pode acontecer porque tocar música com alguém cria uma forma de interação estruturada, com troca e cooperação, mas sem depender tanto da fala, o que é ótimo para quem tem dificuldades com linguagem ou sensibilidade sensorial.
Outro efeito bem legal foi percebido pelas famílias: muitos relataram uma melhora na qualidade de vida em casa. Provavelmente porque a música virou uma forma mais leve e menos estressante de interação social para essas crianças.
E não foi só no comportamento: no cérebro também apareceram mudanças. Hyde observou um aumento na conectividade entre áreas importantes, como o córtex auditivo e o tálamo, além de conexões com o putâmen, regiões ligadas ao processamento de som, movimento e aprendizado.
Resumindo: a música não só ajuda na comunicação e interação social em crianças com TEA, como também promove mudanças reais no cérebro, e ainda melhora a dinâmica familiar no processo.
Sobre essa pesquisa, os pesquisadores escreveram:
“Este estudo fornece a primeira evidência de que 8 a 12 semanas de intervenção musical individual podem de fato melhorar a comunicação social e a conectividade funcional do cérebro, apoiando novas investigações sobre modelos de intervenções musicais com motivação neurobiológica no autismo.”
Referências
(de onde tiramos essas informações)
LEVITIN, Daniel J. I Heard There Was a Secret Chord: Music as Medicine. W. W. Norton & Company, New York, 2024
Sharda, M., Tuerk, C., Chowdhury, R. et al. Music improves social communication and auditory–motor connectivity in children with autism. Transl Psychiatry 8, 231 (2018). https://doi.org/10.1038/s41398-018-0287-3







