Homem sentado à beira da praia com tambor no colo

A Música Pode Alterar Nosso Estado de Consciência?

O fato de ouvir, tocar ou imaginar música pode modificar o modo como nosso cérebro e mente funcionam. Mas além disso, pesquisas indicam que a música é capaz de alterar nosso estado de consciência. Mas o que isso quer dizer?

O que são Estados Alterados de Consciência (EAC)?

O que chamamos de Estados Alterados de Consciência (EAC) são condições em que a mente (ou melhor, a nossa consciência) funciona de modo diferente do que chamamos de estado de vigília normal, aquele em que estamos acordados, atentos e racionais ao longo do dia.

Quando esse estado normal é alterado, nossa percepção, atenção, memória e até sensação de tempo e espaço podem ser alterados. Esses Estados Alterados de Consciência (EAC), podem ser alcançados de diversas maneiras:

  • através do sonho (sono REM)
  • através de práticas religiosas e xamânicas
  • através de estados de transe ou meditação
  • até mesmo pela utilização de substâncias psicoativas (como álcool, cannabis e outros psicodélicos)
  • através da Música e do SOM!

É isso mesmo, pesquisas afirmam que a música é capaz de alterar nosso estado de consciência. Isso quer dizer que a música é capaz de nos tirar do estado “normal” de atenção e consciência cotidiana e nos colocar num outro lugar.

Existem várias maneiras e práticas que podem alterar estados alterados de consciência, práticas com propósitos diferentes que podem desencadear uma série de alterações cognitivas e fenomenológicas.

Em geral, a alteração de consciência tem sido realizada através de rituais, consumo de uma variedade de substâncias, e uso de forma repetitiva de estimulação sensorial e motora (como a meditação, por exemplo).

Porém, o SOM se destaca como um dos meios mais antigos para induzir estados alterados de consciência.

Mas como e por que isso acontece?

Estado Alterado de Consciência é algo novo? – Contexto Histórico

Não é de hoje que os humanos buscam alterar seus estados mentais por meio de diversas práticas culturais. Atividades que podem alterar o estado de consciência podem ser vistas em todo mundo, em diferentes culturas e períodos históricos. Isso quer dizer que essa prática é mais antiga do que imaginamos.

Um artigo publicado em 2023 na famosa revista científica Nature, mostrou evidências diretas (ou seja, comprovou) que nossos ancestrais já utilizavam práticas destinadas a alterar o estado consciente da mente.

O estudo mostrou evidências do uso de múltiplas drogas na Idade do Bronze (cerca de 3.000 anos atrás), em Menorca (uma ilha da Espanha), a partir da análise de cabelo humano – Sim, você não leu errado!

Ou seja, temos comprovação científica que o ser humano sempre fez uso de entorpecentes (drogas) para alterar seu estado de consciência. Além disso, outro dado interessante que essa pesquisa apontou é de que a utilização dessas substâncias estava provavelmente relacionada à questões ritualísticas.

Além disso, existem outros estudos que mostram que a utilização de substâncias que induzem esse estado alterado de consciência pode ser ainda mais antiga, cerca de 14.000 anos atrás.

Estado Alterado de Consciência – Estimulação Auditiva Rítmica

A estimulação auditiva rítmica tem sido utilizada em diversas culturas para alterar a consciência. Pelo menos, é isso que os pesquisadores do Brainlab – Barcelona, afirmaram. Segundo eles, o ritmo é capaz de moldar a consciência e a dinâmica cerebral.

Em artigo publicado em 2025, esses cientistas mostraram que essas estimulações rítmicas auditivas são capazes de desencadear uma reação tálamo-cortical (interconexão no seu cérebro fundamental para funções como a regulação da consciência), sugerindo que esses mecanismos são os mesmos encontrados em estados psicodélicos e até mesmo psicóticos. Segundo os pesquisadores:

O exemplo mais bem documentado é a percussão tocada por xamãs ou especialistas em rituais, uma prática que pode ter uma longa história, já que instrumentos de percussão foram encontrados datando do Paleolítico. Em certos contextos sociais, a percussão realizada por especialistas em rituais envolve experiências poderosas conhecidas na literatura como uma jornada xamânica, frequentemente vivenciada como um sonho lúcido”. – Pesquisadores do Brainlab, artigo de 2025.

Nas pesquisas neurocientíficas, esses Estados Alterados de Consciência (EAC), induzidos por SOM, têm sido investigados principalmente usando estímulos auditivos altamente rítmicos ou isócronos (de duração igual em tempos iguais ou simultaneamente).

Além disso, é Importante mencionar que, de acordo com os pesquisadores, culturas não relacionadas ao redor do mundo usam a estimulação auditiva repetitiva como facilitadora para induzir estados alterados de consciência – ou seja, pessoas de diferentes regiões e culturas utilizam de som como forma de alterar a consciência – para entrar em transe, basicamente. (Talvez isso possa ser explicado também através das teorias de Carl Gustav Jung, mas deixo essa para os psicólogos).

Ao longo da história, o som tem sido uma das ferramentas mais fundamentais para induzir estados alterados de consciência. Um dos exemplos mais bem documentados é o uso de tambores por xamãs e especialistas em rituais, uma prática que pode remontar ao Paleolítico. Vários dos estudos revisados ​​baseiam-se na literatura antropológica, que observa que sons repetitivos evoluíram convergentemente em diversas culturas em todo o mundo”. – Pesquisadores do Brainlab, artigo de 2025.

Isso tudo nos mostra que os sons rítmicos podem ativar um mecanismo universal para a indução de experiências não comuns, sendo capaz de alterar nossa consciência. Além disso, sons rítmicos e isócronos parecem envolver o sistema nervoso de maneiras diferentes de outros tipos de estimulação auditiva não rítmica. Segundo o artigo:

Isso sugere o envolvimento de um mecanismo neural distinto, onde a repetição e a ritmicidade podem desempenhar um papel fundamental na facilitação de estados alterados de consciência” – Pesquisadores do Brainlab, artigo de 2025.

Estado Alterado de Consciência – Tambores e Música Clássica

A música Clássica também é capaz de alterar a consciência. Em um estudo feito em 2021, os pesquisadores compararam praticantes xamânicos com pessoas do grupo de controle (que não praticavam xamanismo). O experimento envolveu ouvir tambores xamânicos e música Clássica, para ver se os efeitos eram específicos do transe.

Durante a audição dos tambores rítmicos, os xamânicos relataram mudanças de consciência muito mais fortes do que o grupo de controle, que não tinha experiência xamânica. O que sugere que esse efeito de alteração de consciência pode ser diferente em cada pessoa, sendo mais “potente” em pessoas com habilidades xamânicas, se assim podemos nomear.

Segundo os pesquisadores, a intensidade dessas mudanças de consciência foi igual ou maior do que a relatada por pessoas sob efeito de drogas psicodélicas – ou seja, o ritmo pode ser mais potente para alterar a consciência do que muita “droga”.

Além disso, eles notaram algumas mudanças nas atividades cerebrais em geral (dos dois grupos analisados). Durante a audição dos tambores rítmicos, houve aumento nas bandas beta baixa, beta alta e gama. Já durante a audição da música Clássica, houve aumento das bandas beta alta e gama. – Traduzindo tudo isso: Alguns desses padrões cerebrais (por exemplo, aumento de potência gama e de PCF em beta baixa) se correlacionaram diretamente com relatos de imagens complexas e alterações visuais, típicas do transe.

Os autores sugeriram que os praticantes xamânicos podem entrar em um estado alterado de consciência caracterizado por um perfil específico de atividade cerebral que se correlaciona com mudanças autorrelatadas na experiência subjetiva. Além disso, os praticantes xamânicos apresentam um perfil de atividade cerebral específico que se torna evidente mesmo ao ouvir música clássica.

Mantras e Cantos

Para além dos tambores rítmicos, foi comprovado que meditação que utilizam mantras e cantos são capazes de reduzirem a dor e a disfunção no joelho, são capazes de melhorar o sistema imunológico aumentando a imunoglobina, e podem melhorar o humor e estados efetivos.

Além disso, meditações com cantos podem aumentar as respostas galvânicas da pele (também conhecidas como atividade eletrodérmica, que são mudanças nas propriedades elétricas da pele, que ocorrem em respostas a estímulos emocionais, como excitação).

Outras pesquisas afirmam que práticas de meditação com mantras podem melhorar a saúde mental e diminuir a afetividade negativa.

Estado Alterado de Consciência – Música Eletrônica

Em outro artigo do mesmo grupo de pesquisa do Brainlab, os autores compararam os eventos de música eletrônica, como o famoso e mundial Tomorrowland, à práticas ritualísticas xamânicas. No texto, eles explicam que a dinâmica desses eventos são elementos-chave para produzir Estados Alterados de Consciência.

A ideia central do estudo é que batidas repetitivas, como as de tambores ou da música eletrônica, podem levar o cérebro a um processo chamado entrainment, isto é, sincronização dos ritmos cerebrais com os estímulos sonoros externos.

Essa sincronização ajudaria a explicar por que a música é capaz de induzir estados alterados de consciência, como o transe, a sensação de conexão coletiva, e experiências de transcendência. Veja o que eles escreveram:

“Pesquisas anteriores sobre estados alterados de consciência (EAC), atribuem os efeitos da estimulação repetitiva nesses estados ao entrainment (sincronização dos ritmos cerebrais com estímulos externos […]. Isso é relevante em eventos de música eletrônica, onde as batidas rítmicas fortes — semelhantes às do tambor — podem desempenhar um papel central na indução de EACs e no favorecimento de sentimentos de conexão e transcendência. Até onde sabemos, este é o primeiro estudo sistemático que demonstra uma relação entre entrainment e EAC. Em resumo, este artigo argumenta que o entrainment e os aspectos fenomenológicos dos EACs induzidos por estímulos repetitivos estão relacionados”. – Pesquisadores do Brainlab, artigo de 2025.

Além disso, os pesquisadores argumentam que a dança somada à batida da música também se apresenta como um fator relevante para alterar o estado de consciência.

Aqui, vale mencionar que a dança já foi descrita como religiosa por sua própria natureza. Pois a dança, além de causar a liberação de endorfina e fortalecer os laços sociais (descritos como sentimentos de unidade facilitado pela sincronia musical), pode também levar a pessoa para um estado de “flow”. O que, somado aos efeitos da música eletrônica, pode auxiliar essa experiência “xamânica”.

Por fim, a pergunta que nós fazemos é: Quais outros ritmos ou formas de arte podem nos colocar nesse estado de alteração de consciência? E, principalmente, por que a arte é capaz de fazer isso conosco? Será que existe tal resposta?


Referências

(de onde tiramos essa informação)

Aparicio-Terrés, R., López-Mochales, S., Díaz-Andreu, M., & Escera, C. (2025). The neurobiology of altered states of consciousness induced by drumming and other rhythmic sound patterns. Ann NY Acad Sci., 1–16. https://doi.org/10.1111/nyas.15403

Aparicio-Terrés R, López-Mochales S, Díaz-Andreu M and Escera C (2025) The strength of neural entrainment to electronic music correlates with proxies of altered states of consciousness. Front. Hum. Neurosci. 19:1574836. doi: 10.3389/fnhum.2025.1574836

Guerra-Doce, E., Rihuete-Herrada, C., Micó, R., Risch, R., Lull, V., & Niemeyer, H. M. (2023). Direct evidence of the use of multiple drugs in Bronze Age Menorca (Western Mediterranean) from human hair analysis. Scientific Reports13(1), 4782. https://doi.org/10.1038/s41598-023-31064-2

Huels, ER , Kim, H. , Lee, U. , Bel-Bahar, T. , Colmenero, AV , Nelson, A. , Blain-Moraes, S. , Mashour, GA , & Harris, RE ( 2021 ). Neural Correlates of the Shamanic State of Consciousness. Frontiers in Human Neuroscience , 15 , 610466. https://doi.org/10.3389/fnhum.2021.610466


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