Carnaval como Luta Antimanicomial
Sem dúvida, o Carnaval pode significar muitas coisas, mas ele também pode ser sinônimo de luta antimanicomial. Pelo menos é isso que uma galera lá do Rio de Janeiro se propôs à fazer, segundo um artigo feito por pesquisadores da UFRJ, publicado em 2025.
Fundado há mais de 20 anos, o bloco carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou!, é um grande exemplo disso. Trata-se de uma iniciativa que promove a garantia de direitos, acesso à cidade, valorização e expressão da cultura popular à todos os cidadãos, inclusive aqueles com transtornos mentais.
Mas por que isso é tão importante?
Na história da loucura, a manicomialização foi utilizada como estratégia de encarceramento de pessoas com transtornos psiquiátricos, consideradas perigosas, improdutivas e incapazes de viver em sociedade. Além do confinamento físico, a lógica de asilar teve grande impacto e repercussões em toda nossa sociedade.
A reforma psiquiátrica, que felizmente aconteceu, surgiu como um movimento de resistência, luta e reivindicação de direitos, rompendo com o paradigma da psiquiatria tradicional. Nise da Silveira, por exemplo, foi um grande nome dessa luta aqui no Brasil.
Tá Pirando, Pirado, Pirou!
Criado à partir de uma parceria entre o Instituto Philippe Pinel (IMPP), o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB), o Instituto Franco Basaglia (IFB) e a Associação de Moradores da Lauro Müller (ALMA), o bloco carnavalesco inovou ao reunir usuários, familiares, profissionais, estudantes, militantes e simpatizantes da Luta Antimanicomial.
O nome “Tá Pirando, Pirado, Pirou!” foi proposto por Gilson Secundino, um dos fundadores do bloco e usuário da RAPS (A Rede de Atenção Psicossocial do SUS), e escolhido por meio de uma votação. Gilson explicou o porquê deste nome:
“A gente tem que ser ousado e pretensioso. Não vamos fazer uma festa de Carnaval apenas pra quem já pirou, vamos pra rua brincar com quem tá pirando! ”
Ao longo do ano, o coletivo convida seus participantes a fazer parte de todas as etapas de criação do bloco de Carnaval. Nada é feito de forma isolada: todos participam da escolha do tema, das músicas, da produção dos figurinos e dos adereços, além dos ensaios, oficinas e do desfile. Esses momentos funcionam como espaços de encontro, convivência e troca de experiências.
Nesse processo, a ideia de loucura ganha novos sentidos. Em vez de ser vista apenas como algo que precisa ser corrigido ou eliminado, ela passa a ser entendida como uma experiência possível da vida humana, marcada por histórias, afetos e diferentes formas de existir. O coletivo mostra, na prática, que a cultura e a participação social podem ser caminhos importantes para o cuidado e para o reconhecimento das pessoas.
O Bloco – Repercussão Atual
Hoje, cerca de 80 pessoas participam regularmente das atividades do bloco. Outras 300 se envolvem na escolha do samba-enredo, e aproximadamente 3.000 foliões acompanham o desfile pela rua Pasteur, no Rio de Janeiro.
A experiência mostra que o encontro entre Carnaval e atenção psicossocial abre muitas possibilidades de cuidado, criação e participação social. Trata-se de uma prática comprometida com a luta antimanicomial, com a valorização da diversidade e com a construção de formas mais justas e inclusivas de viver em sociedade.
Mais do que uma festa, o Carnaval aparece aqui como um espaço de cuidado coletivo, de expressão e de resistência. É um convite para ocupar a cidade, celebrar a vida e transformar juntos as avenidas.
Referências
(de onde tiramos essas informações)
Ramos Brega, B., Ribeiro Vaz, L., & Araújo Silva, J. Carnaval e Atenção Psicossocial: apontamentos a partir da experiência do Coletivo Carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou! Revista Interinstitucional Brasileira De Terapia Ocupacional – REVISBRATO, 9(1). 2025. Disponível em: https://doi.org/10.47222/2526-3544.rbto65003.







